
É saudável sentirmos felicidade nas situações em que disfrutamos simplesmente da nossa companhia.
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Isto difere da solidão. Quando uma pessoa vivência este tipo de sentimento, relata dificuldade em sentir-se acompanhada, mesmo que em alguns momentos várias pessoas estejam à sua volta. Há uma sensação contínua de vazio e de perda de sentido que tanto pode estar a ser involuntariamente provocada pela própria pessoa ou por circunstâncias externas que não consegue controlar. Essas circunstâncias tanto podem assentar numa mudança de residência como na perda de laços afectivos e podem ser pouco duradouras se a pessoa tiver anteriormente aprendido a comunicar com os outros e a estabelecer ligações.
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Quando a solidão é sentida desde muito cedo no desenvolvimento da pessoa, pode levar ao reforço do problema enquanto padrão emocional e de comportamento e estar muito presente ao longo da vida. Nestes casos a pessoa precisa de ser ajudada a identificar porque motivo não teve a oportunidade de se sentir mais acompanhada, compreendida e ligada a um círculo de pessoas com quem se consiga identificar e de que forma poderá a pouco e pouco alterar o seu funcionamento habitual.
Por exemplo, um sentimento de exclusão em idades precoces pode levar a criança ou jovem a habituar-se a contar consigo própria e a não partilhar o que pensa e sente. Com o passar do tempo, torna-se automático não considerar a possibilidade de se envolver noutros grupos que poderiam reduzir ou até mesmo eliminar o sentimento inicial, por percepção prévia de inadequação. A ausência de ligações passadas diminui a possibilidade de criar novas ligações no futuro e assim sucessivamente, podendo-se tornar muito complicado iniciar todo o processo já na idade adulta em que por diversos motivos há menos oportunidades de espontâneamente criar amizades.
Por outro lado, a solidão gera solidão e quanto mais sozinhos nos sentimos, mais sozinhos procuramos ficar.
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Na vida adulta, a existência de uma relação amorosa satisfatória e eventualmente a formação de uma família para além da de origem, é também um factor muito importante no que toca à solidão. O ser humano geralmente necessita de estabelecer este género de vínculos para amar e sentir-se amado de uma forma mais profunda, presente e permanente, assim como de criar um sentido de continuidade através de filhos. No entanto, isto são traços gerais, pois há obviamente muitas pessoas que encontram felicidade em formatos menos tradicionais.
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No idoso, a solidão pode ser completamente devastadora, na medida em que é uma fase da vida em que não se procura tanto estabelecer novos contactos, mas sim viver com satisfação as amizades e relações feitas ao longo de uma vida. Infelizmente não são apenas os idosos que não têm família que sofrem de um total isolamento, pois verifica-se que esta faixa etária tem vindo a ser menos respeitada dentro do próprio núcleo familiar. Há uma espécie de consenso entre várias pessoas de que não podemos travar as nossas vidas por causa dos idosos e isto consegue ser mais doloroso do que não ter familaires. Uma velhice sem lugar, sem amor e afecto levará inevitavelmente a uma pobre qualidade de vida e à incidência da depressão.
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As mudanças sociais revelam, no entanto, que independentemente da idade a solidão tem-se vindo a acentuar cada vez mais e que a modernidade nos permite ter amis contactos, mas também vivê-los de forma muito mais superficial.
Os divórcios, as mudanças constantes de escolas e de locais de trabalho e um menor sentido de comunidade decorrente principalmente das grandes cidades, são factores que contribuem para o isolamento e consequentemente para a solidão. Se por um lado estamos mais orientados para a procura de satisfação pessoal, e daí termos vidas com mudanças constantes e supostamente para melhor, por outro lado apercebemo-nos de que essa procura pode trazer ao mesmo tempo menos disponibilidade para criar e manter relações.
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É-nos também transmitida a ideia errada de que um elevado número de experiências diferentes é sinónimo de felicidade, o que pode levar à ansiedade de saltar rapidamente de uma vivência para outra sem retirar o que cada uma delas nos pode verdadeiramente dar. Isto significa que na globalização em que vivemos precisamos de adquirir um filtro que nos ajude a detectar o essencial do acessório, ou seja, a depender mais das necessidades internas do que de exigências sociais externas. Se o fizermos, é bem provável que a nossa agenda esteja menos cheia mas que também nos possamos sentir menos sozinhos.
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Quando a pessoa sente que está permanentemente com um sentimento de solidão, é aconselhável procurar a ajuda de um profissional. A compreensão do que originou esse problema é por si só um motor para a redução desse sentimento e as perspectivas do que poderá ser mudado o outro grande passo para que a situação se resolva.
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